Eric era um homem rico, vivia dem mordomias e mulheres bonitas. Jovem, ambicioso e ambiguo. Estranho. Todos se perguntavam porque um homem como ele preferia ter nascido um vira-latas. Nem sequer tinha um cachorro ou gato. Parecia feliz. Na verdade estava sempre feliz, pelo menos na maior parte do tempo. Mas queria ser um vira-latas. Inadmissível! Achavam isso uma afronta, um desperdício de todas as riquezas que tinha. Uma loucura de mais um riquinho idealista de esquerda.
Certa vez em um programa de televisão, a entrevistadora fez a pergunta da qual todos queriam saber a resposta.
- Todos dizem que o senhor queria ter nascido um cão vira-latas, isso é verdade? E porque?
Eric sorriu
- Sim, é verdade. Seria um sonho. Uma realização, talvez. Se pudesse fazer isso nessa vida, é claro. Mas não posso. Já pensou no que um vira-latas tem? Nada. Do ponto de vista físico, nada. Mas é absolutamente o contrário. De um cachorro de raça, abandonado, muitos sentem pena. Claro que sentem pena de um vira-lata, mas de um cachorro de raça sentem mais. Vocês sabem. Um vira-lata cumpre as expectativas. Todos sabem que ele tem a noção de como se virar, de como atravessar a rua, de como saber que alguém vai maltratá-lo ou não. Eles não pedem nada em troca, só querem viver livres. Não te rotulam, não te cobram, não te magoam. Não sabem contar, não sabem estipular valores. Logo, o dinheiro não tem valor algum para eles. Não precisam causar boa impressão. Ninguém espera absolutamente nada deles. Se está morto ou vivo, não importa. Ninguém se aproveita de sua condição. Ele só tem a ganhar, pois está além de qualquer valor humano, ou desumano. Está distante de qualquer impedimento que a consciência nos concede ou nos subtrai. O mais importante é que não tem noção de tal coisa. Assim não se permite entristecer nem subjugar os seus.
- É por isso que gostaria de ser um. Eu realmente não espero que concordem ou entendam. Um cachorro não esperaria.
FIM
Nenhum comentário:
Postar um comentário